quarta-feira, 11 de março de 2026

«Camões, para quê?»; Luis Maffei

 - ensaio,            na Revista «Convergência Lusíada»   (n.º 36, Especial, «Quinhentos Camões, o poeta reverberado» ;

EXCERTO (relativo ao soneto de «Incipit» Correm turvas as águas deste rio):


Camões, nos sonetos, não raro estabelece um acordo, ou desacor-do, entre antinomias, não se cansando de abraçar adversativas. Nes-se caso, não, pois o poema é um fluxo mais ou menos linear, como se começasse turvo, como o “rio” do primeiro verso, e turvo termi-nasse, indo da descrição de um locus à de um éthos. O que chamei de linearidade é, na verdade, uma acumulação de argumentos que deságua no último terceto, quando, ao contrário de uma solução, a conclusão é mais que nunca ligada à aparência – desde o primeiro verso, o poema está debruçado sobre o mundo, procurando entendê--lo, quer dizer, procurando algum modo de dizê-lo, mas indicando que o entendimento não se oferece pacificamente, pois a condição da existência é indigente

Camões, nos sonetos, não raro estabelece um acordo, ou desacor-do, entre antinomias, não se cansando de abraçar adversativas. Nes-se caso, não, pois o poema é um fluxo mais ou menos linear, como se começasse turvo, como o “rio” do primeiro verso, e turvo termi-nasse, indo da descrição de um locus à de um éthos. O que chamei de linearidade é, na verdade, uma acumulação de argumentos que deságua no último terceto, quando, ao contrário de uma solução, a conclusão é mais que nunca ligada à aparência – desde o primeiro verso, o poema está debruçado sobre o mundo, procurando entendê--lo, quer dizer, procurando algum modo de dizê-lo, mas indicando que o entendimento não se oferece pacificamente, pois a condição da existência é indigente