segunda-feira, 14 de setembro de 2026

«Para Rui, O Belo», Lídia Jorge

 - [OUTRO, deste livro: AQUI]

PARA RUI, O BELO

No meu caso, basta que as ondas do mar 
avancem e olhem para o lugar da areia
onde me encontro, para que Deus levante
a sua cabeça.

Nada posso fazer - Não é um pássaro
que eu possa enxotar com os braços
ou gritos de alarido, de nada vale cometer
essa inutilidade.

Ele fica no meio das águas e eu não
sei porquê - Segue-me com o olhar
como se eu fosse uma presa difícil
no meio da paisagem que lhe pertence
por inteiro.

O carro conduzido a toda a velocidade
atravessa a campina, e quando dou por
mim, persiste no pôr do Sol vermelho
e indica-me um caminho de que não
conheço o leito nem vislumbro o fim.
No meio do meu percurso, estou parada.
Nada posso fazer a não ser medir
a distância entre mirador e mirada.

Mas assino tréguas e faço as pazes
quando a praia se enche da presença
daqueles de quem sou irmã, e juntos tomamos
banho, saídos do mesmo barro - Assino tréguas
em homenagem ao primeiro dia da criatura
de lama que eles são e em mim trago.

Protegidos por nós mesmos, somos um bando coeso
no intervalo da sua escolta, bastamo-nos, mas eu
nada posso fazer.

Bem podemos cantar o nosso coro de emancipação
agitar bandeiras de independência.

Ao cair da noite, Ele levantará de novo
a sua cabeça.

                  Lídia Jorge, O livro das tréguas, 2019, 2022, pp. 20-21

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ser Mestre

 - «Cartoon» de hoje do «Bartoon»:


- na «AA», 3 horários de FILO, para «contratação de escola» - ao que isto chegou...

sábado, 20 de junho de 2026

«Anti-Cesário», no «639»

 - «mais do mesmo» no «639» - e há décadas, não?; Carlos Ceia e A. Carlos Cortez «voltam a pôr os pontos nos is», no artigo de dia 18, no «Público» - O exame de Português do 12.º ano: a aferição da mediocridade

[há décadas, numa «revisão» Program.a, tentaram excluir a «pequena-grande» Obra de Cesário... ; teria sido melhor?]

RECORTE(s):

[...] Cesário Verde, que, coitado, é reduzido a um exercício de análise emocional ridículo e sem validade científica. O arco emocional de um poema é reduzido a uma função matemática, algo que conhecemos de algumas tentativas de reduzir a literatura a um campo estatisticamente modelável, o que hoje podemos fazer com alguns modelos de linguagem generativa, mas isso é outro campeonato e muito distante dos objectivos de avaliação de competências leitoras. Um poema não é um inquérito emocional. Não se lê Cesário Verde como quem pergunta: “Como se sentia ele neste momento?” Lê-se perguntando: como é que a linguagem produz uma determinada percepção do real? Que relações estabelece entre espaço, classe social, movimento, cor, corpo, trabalho, doença, comércio, império, miséria e modernidade urbana? [...]

terça-feira, 12 de maio de 2026

«Anti-Cesário», Elisa Costa Pinto

 ANTI - CESÁRIO

                    Nas nossa ruas, ao anoitecer,
                    Há tal soturnidade, há tal melancolia,  
                   Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
                   Despertam-me um desejo absurdo de sofrer 

 

Não te perdoo     Cesário     o roubo das palavras
            estas 
que agora me faltam para dizer o mal-estar que nos 
            sufoca
e mata nos hospitais e ameaça nas ruas onde

           fantasmas
sem rosto caminhamos.

Condenaste-nos a engolir as tuas palavras sempre
que descemos     os emparedados     o dorso da Babel
            doente
e sem deambulação nem desassossego escorregamos
pelo ombro esquerdo da cidade até ao rio
para beber sem tecto fundo nem ventilador
o oxigénio   o  ar.

Mas fica sabendo     Cesário    sei de um lugar
não boqueirões     não becos     não embocaduras
            não lustroso o rio
onde o silêncio incandescente nasce de um astro
            com olheiras
despertado ao anoitecer no Tejo
onde lavamos os olhos.          Lavamos os olhos.

Onde lavaremos azul o coração?

Elisa Costa Pinto, Contra corvos, 2026, p. 26

domingo, 22 de março de 2026

«Um livro puxa pela Internet» (MEC)

 Crónica de hoje de M. E. C., «Entre o glacis e os gabiões».. OU Literatura versus Cinema versus «Internet» versus «podcast»

RECORTE(s):

[...] Por isso é que ler um livro é melhor: porque não se está a fazer mais nada. Não é o livro que é melhor do que o podcast: é o cérebro dedicado inteiramente ao que entra pelos dois olhos, com os ouvidos reduzidos à sua lateralidade. [...]

Quando vi o filme, vi o glacis e os gabiões, mas, como os via, não precisei de saber os nomes. E como não pensei nisso, também não pensei na maneira como tinham sido concebidos.
Podia parar o filme e ir ver, mas parar o filme para quê? O filme não desperta curiosidade. Não me faz sentir-me ignorante. Não me desafia a completá-lo.
O livro torna-me activo. Puxa por mim. Emprega-me todo. Faz-me trabalhar pela minha cumplicidade. É quase como me tornar membro de uma organização secreta.
Um livro puxa pela Internet. É mais moderno.

É mais pedinchão.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A. Lobo Antunes . Lista

 - M. de E. terá sido (com O d. dos P., de L. J.) «responsável» pela mudança de Rumo de D....; muito devagar lido, na Pausa da Tarde ( D. ainda na C. da C.), no Lago dos Patos do Parque... ou no Jardim das Amoreiras...; na FNC, em [...] apresentou-lho; comentou o «bom estado do exemplar», disse que «duvidava se tinha algum», para a assistente, que se prontificou a encontrar-lho; perguntou ainda a D. «se sabia quantos livros tinha»;

- ainda não sabe; mas não são muitos... (muitas doações nos últimos tempos, pois não quer deixar «sobrecarregadas» as Ladies...);


- COLÓQUIO, GULB., 40 anos, 2019;

- LEITURAS: de «Memória de Elefante»;       «Crónica da pomba branca»;  

- «Artigo-Dossiê» na CNN; 

- Entrevista, 2018;    Entrevista, 2006 (a A. M. R.);   Entrevista, 2008 (a M. C.);  

                 Entrevista, 2014 (?) ( a M. C.);    «Grande Entrevista», 2017 (8-11);

- Crónica de M. E. C.;    «Carta ao meu irmão acidental» (Paulo Faria);     

- DEPO:  Lídia Jorge;     Ana M. de Carvalho;   Ana Paula Arnaut;   F. José Viegas ;

R. G. de Carvalho;     J. C. e Silva;   António Guerreiro; 

- Dez Livros (Público);    Dossiê - Público;

- em «O poema ensina a cair» - Sugestões de Leitura, a 24 de Abril, Pedro Mexia, sobre «Fado Alexandrino» [romance sobre o «25 de Abril»], vídeo; [mais extenso, no «Podcast»....]

«Camões, para quê?»; Luis Maffei

 - ensaio,            na Revista «Convergência Lusíada»   (n.º 36, Especial, «Quinhentos Camões, o poeta reverberado» ;

EXCERTO (relativo ao soneto de «Incipit» Correm turvas as águas deste rio):


Camões, nos sonetos, não raro estabelece um acordo, ou desacor-do, entre antinomias, não se cansando de abraçar adversativas. Nes-se caso, não, pois o poema é um fluxo mais ou menos linear, como se começasse turvo, como o “rio” do primeiro verso, e turvo termi-nasse, indo da descrição de um locus à de um éthos. O que chamei de linearidade é, na verdade, uma acumulação de argumentos que deságua no último terceto, quando, ao contrário de uma solução, a conclusão é mais que nunca ligada à aparência – desde o primeiro verso, o poema está debruçado sobre o mundo, procurando entendê--lo, quer dizer, procurando algum modo de dizê-lo, mas indicando que o entendimento não se oferece pacificamente, pois a condição da existência é indigente

Camões, nos sonetos, não raro estabelece um acordo, ou desacor-do, entre antinomias, não se cansando de abraçar adversativas. Nes-se caso, não, pois o poema é um fluxo mais ou menos linear, como se começasse turvo, como o “rio” do primeiro verso, e turvo termi-nasse, indo da descrição de um locus à de um éthos. O que chamei de linearidade é, na verdade, uma acumulação de argumentos que deságua no último terceto, quando, ao contrário de uma solução, a conclusão é mais que nunca ligada à aparência – desde o primeiro verso, o poema está debruçado sobre o mundo, procurando entendê--lo, quer dizer, procurando algum modo de dizê-lo, mas indicando que o entendimento não se oferece pacificamente, pois a condição da existência é indigente