ANTI - CESÁRIO
Nas nossa ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
Não te perdoo Cesário o roubo das palavras
estas
que agora me faltam para dizer o mal-estar que nos
estas
que agora me faltam para dizer o mal-estar que nos
sufoca
e mata nos hospitais e ameaça nas ruas onde
fantasmas
sem rosto caminhamos.
e mata nos hospitais e ameaça nas ruas onde
fantasmas
sem rosto caminhamos.
Condenaste-nos a engolir as tuas palavras sempre
que descemos os emparedados o dorso da Babel
doente
e sem deambulação nem desassossego escorregamos
pelo ombro esquerdo da cidade até ao rio
para beber sem tecto fundo nem ventilador
o oxigénio o ar.
Mas fica sabendo Cesário sei de um lugar
não boqueirões não becos não embocaduras
não lustroso o rio
onde o silêncio incandescente nasce de um astro
com olheiras
despertado ao anoitecer no Tejo
onde lavamos os olhos. Lavamos os olhos.
Onde lavaremos azul o coração?
Elisa Costa Pinto, Contra corvos, 2026, p. 26