terça-feira, 12 de maio de 2026

«Anti-Cesário», Elisa Costa Pinto

 ANTI - CESÁRIO

                    Nas nossa ruas, ao anoitecer,
                    Há tal soturnidade, há tal melancolia,  
                   Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
                   Despertam-me um desejo absurdo de sofrer 

 

Não te perdoo     Cesário     o roubo das palavras
            estas 
que agora me faltam para dizer o mal-estar que nos 
            sufoca
e mata nos hospitais e ameaça nas ruas onde

           fantasmas
sem rosto caminhamos.

Condenaste-nos a engolir as tuas palavras sempre
que descemos     os emparedados     o dorso da Babel
            doente
e sem deambulação nem desassossego escorregamos
pelo ombro esquerdo da cidade até ao rio
para beber sem tecto fundo nem ventilador
o oxigénio   o  ar.

Mas fica sabendo     Cesário    sei de um lugar
não boqueirões     não becos     não embocaduras
            não lustroso o rio
onde o silêncio incandescente nasce de um astro
            com olheiras
despertado ao anoitecer no Tejo
onde lavamos os olhos.          Lavamos os olhos.

Onde lavaremos azul o coração?

Elisa Costa Pinto, Contra corvos, 2026, p. 26