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PARA RUI, O BELO
No meu caso, basta que as ondas do mar
avancem e olhem para o lugar da areia
onde me encontro, para que Deus levante
a sua cabeça.
Nada posso fazer - Não é um pássaro
que eu possa enxotar com os braços
ou gritos de alarido, de nada vale cometer
essa inutilidade.
Ele fica no meio das águas e eu não
sei porquê - Segue-me com o olhar
como se eu fosse uma presa difícil
no meio da paisagem que lhe pertence
por inteiro.
O carro conduzido a toda a velocidade
atravessa a campina, e quando dou por
mim, persiste no pôr do Sol vermelho
e indica-me um caminho de que não
conheço o leito nem vislumbro o fim.
No meio do meu percurso, estou parada.
Nada posso fazer a não ser medir
a distância entre mirador e mirada.
Mas assino tréguas e faço as pazes
quando a praia se enche da presença
daqueles de quem sou irmã, e juntos tomamos
banho, saídos do mesmo barro - Assino tréguas
em homenagem ao primeiro dia da criatura
de lama que eles são e em mim trago.
Protegidos por nós mesmos, somos um bando coeso
no intervalo da sua escolta, bastamo-nos, mas eu
nada posso fazer.
Bem podemos cantar o nosso coro de emancipação
agitar bandeiras de independência.
Ao cair da noite, Ele levantará de novo
a sua cabeça.
Lídia Jorge, O livro das tréguas, 2019, 2022, pp. 20-21
