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terça-feira, 12 de maio de 2026

«Anti-Cesário», Elisa Costa Pinto

 ANTI - CESÁRIO

                    Nas nossa ruas, ao anoitecer,
                    Há tal soturnidade, há tal melancolia,  
                   Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
                   Despertam-me um desejo absurdo de sofrer 

 

Não te perdoo     Cesário     o roubo das palavras
            estas 
que agora me faltam para dizer o mal-estar que nos 
            sufoca
e mata nos hospitais e ameaça nas ruas onde

           fantasmas
sem rosto caminhamos.

Condenaste-nos a engolir as tuas palavras sempre
que descemos     os emparedados     o dorso da Babel
            doente
e sem deambulação nem desassossego escorregamos
pelo ombro esquerdo da cidade até ao rio
para beber sem tecto fundo nem ventilador
o oxigénio   o  ar.

Mas fica sabendo     Cesário    sei de um lugar
não boqueirões     não becos     não embocaduras
            não lustroso o rio
onde o silêncio incandescente nasce de um astro
            com olheiras
despertado ao anoitecer no Tejo
onde lavamos os olhos.          Lavamos os olhos.

Onde lavaremos azul o coração?

Elisa Costa Pinto, Contra corvos, 2026, p. 26

[outro poema, «Eu não seria bem vinda em Elsinore», dito por Ana Zorrinho - AQUI]

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

«Cardume», Inês Lourenço

 - nos poemas da 2.ª parte («Os caules submersos», pp. 27 - 52) do último livro de I. L. são evocados vários poetas - listados na p. 76

CARDUME

As tuas varinas descalças
todas de negro nas descargas de carvão
já não são noivas que ficaram por casar, mas sim
as mães que embalam futuros náufragos
nas canastras, já não os heróis das Descobertas
mas sim os destinados às tormentas
da faina piscatória. Hoje
abjuramos dos usos carboníferos, que o Tempo
tudo esmorece. E nunca vamos 
abjurar do mar que foi há séculos
a nossa Terra Prometida, na fuga possível
à condição hispânica. Mar que ameaça 
no futuro inundar as cidades litorais
se continuar o degelo árctico. Anoitecemos
contigo, Cesário, na nostalgia
desta fronteira incerta de Ocidente.
  
                         Inês Lourenço, Ainda o lugar incerto da procura, 2024, p. 37

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Cesária

  - a «Dívida» a Cesário, sempre assumida, desta vez num livro de 38 poemas, tendo Lisboa «e Tejo e tudo» como um dos Motivos centrais; outras Mãos, que buscam outras «Visões de Artista»...;

CESÁRIO VERDE

A maior memória que tenho da infância é amarela
Uma imensa tela nos meus olhos
De acácias altas e frondosas
Invasivas
Como uma aguarela impressionista
Com traços violentos
Salpicados
E um tapete de pequenas flores espalhado pelo chão
Como um pigmento divino que fica gravado na sola da alma
Nas bermas das estradas onde caminhávamos
Juntos
De mãos dadas
É o que tento pintar com as palavras
Com uma paleta oval e muitas tintas misturadas nos meus dedos
Cheios de letras
E tu, Cesário. Dentro.

Ana Paula Jardim, Guerra e Paz, rua do arsenal [2024, Maio], p.28
[OUTRO] 

sábado, 16 de março de 2024

«Roubado a Cesário» - Parrado, Luís Filipe

ROUBADO A CESÁRIO

Mais tarde, pela fresca, fomos todos

roubar ameixas. Em algum momento,

nunca se soube qual,

de tão carregado que estava

um dos troncos cedeu ao peso dos frutos

e tombou por terra. Julguei que esse tinha sido

o ponto alto do dia, com os cestos

a abarrotar, cheios até cima,

mas tu enrolaste o cabelo num novelo

e prendeste-o com um lápis no topo da cabeça,

aparentemente sem te dares conta do que fazias.

Como um rasgão, em surdina,

eu vi a curva perfeita do teu pescoço.

 Luís Filipe Parrado, Museu da angústia natural, 2023, p. 10

[L. F. P., no «Podcast Clube dos poetas vivos», em Junho de 2024]