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segunda-feira, 15 de abril de 2019

«conjugar o Gerundivo» + «olhos na ortografia»

[Cartola] Confiou o pedido da nacionalidade portuguesa a Barbosa da Cunha passando-lhe para a mão uma pasta com papelada que não voltou a ver. Pelo menos uma vez por ano, assegurava a Aquiles que os documentos estavam para sair. «Vai sair, menino Aquiles, agora, se me faz esse favor, olhos na ortografia que sem ortografia isso não anda para a frente!», dizia sem olhar para o filho, como quem, apesar do tom de gozo, falasse de um parente afastado. Não contava a ninguém que não sabia em que pé estava o processo, de que o obstetra pouco ou nada falava. Vivia com medo da polícia, de uma rusga. Planeava fazer-se de morto caso o abordassem. Parecia pensar que algum dia lhe bateriam à porta e lhe diriam que estava tudo tratado, que era enfim português, direito que julgava pertencer-lhe. Não sabia ele conjugar o gerundivo e a origem etimológica da palavra «Tejo»? Não achava, inspeccionando-se ao espelho, que não se geravam a norte do Alentejo, «e muito menos em África», maçãs-de-adão como a de Aníbal Cavaco Silva? […] Não escolhera já o seu talhão no Cemitério dos Prazeres, para onde se esquivava a entoar cânticos fúnebres em kikongo enquanto admirava os jazigos de família? Não se arrepiava ao ouvir o hino de Portugal e sabia de cor a primeira estrofe dos Lusíadas? […]

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda, Lisboa, Paraíso, 2018, Companhia das Letras, pp. 88-89

sábado, 20 de janeiro de 2018

Adjetivos: brutal e genial (R. A. P.)

Ilustração de João Fazenda, para a crón. de Ricardo A. Pereira, da «Visão» de 18 -01


RECORTE:
 [...]  Já aqui falámos do que tem vindo a acontecer ao adjectivo brutal, vítima de uma brutal alteração de significado. Quase tudo o que é brutal, hoje, é o rigoroso oposto do que era brutal no passado. Mas talvez nenhuma outra palavra tenha tido pior sorte do que o adjectivo genial. Era um termo recatado, precioso, de utilização rara. Aplicava-se quase exclusivamente a coisas que tivessem sido feitas por Leonardo Da Vinci, e era assim que estava certo. De repente, sem que o mundo tivesse acompanhado esse melhoramento, tudo passou a ser genial. Certo vinho é genial. Uma peça de roupa pode ser genial. Alguns silêncios são geniais.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

APAGA - APAGA

278

Impelir uma frase até ao limite da sintaxe. E ficar depois de guarda ao seu pulsar de pássaro cansado rente à tarde. E apagá-la da página de novo inacabada. Soltá-la para que regresse ao caos onde dormem em segurança todas as frases.

Ivone Mendes da Silva, Dano e virtude, Língua Morta, 2017 (Julho), p. 133

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

«Gramática» - Manuel Alegre

GRAMÁTICA

Eis a língua: território devastado
O rato rói a rolha e a gramática
E as cordas partem-se por dentro da sintaxe

As sílabas da pátria estão superlotadas

Manuel Alegre, Chegar aqui, 1984

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Gramática [(a Inutilidade do) fruto da] - Nuno Júdice

A INUTILIDADE DA GRAMÁTICA

Tocando o fruto da gramática como se
caísse de maduro, fazia com que a casca
de verbos se descolasse da polpa e via
cair o sumo do pronome sobre o sujeito
da frase que, para ele, tinha o corpo
da amada. Seguira aquele modelo segundo
o qual no princípio era o verbo; mas
o sujeito sobrepunha-se ao verbo, e via
o seu rosto, que a luz da manhã
enchia de cor, sorrir-lhe, como se
aquela sequência de palavras tivesse
outra vida para além da página. Mas
a árvore secara; e quando foi à procura
da raiz no campo estéril da sua memória,
nenhum pronome tinha corpo, e o verbo
que o animara reduzia-se a uma forma
inactiva nos seus dedos manchados de tinta

Nuno Júdice, O fruto da gramática, D. Quixote, 2014 (setembro), p. 26

domingo, 9 de setembro de 2012

O ensino da Gramática - Rubem Fonseca

[adequado para iniciar uma nova Estação ou Época]

O ensino da gramática

 Você está triste?
Não sei. Talvez.
Tristeza dá câncer, sabia?
Pensei que dava verruga no nariz.
Estou falando sério.
Ultimamente você vive falando sério.
Quando eu brincava você reclamava.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Você colocou vírgula depois de mar.
Estou falando, não estou escrevendo.
Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?
Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?
Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.
Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.
Porque eu sei gramática e você não?
Entre outras coisas.

 […] 
[ltexto completo em Releituras]

 in Axilas e outras histórias indecorosas, de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira - 2011