sábado, 3 de agosto de 2019

«Pensar sintaticamente...»... OU «culpem Saramago...»

- em Junho, em plena PÓS-OPER., W. leu de passagem esta crónica de FIN de 1819..., a «brincar às Intertextualidades» ; foi relida hoje, pois estava na «proximidade» DESTA...;
- sendo Matéria não «Premium», deverá continuar disponível...
RECORTE:
«[...] Sim, porque se a minha escrita é agora incerta, culpem o vencedor do Prémio Nobel, já que agora escrevo de acordo com as pausas breves de respiração – vírgulas – e as pausas longas – pontos finais – intercalado por vocativos no discurso indireto livre, Toda a gente sabe que o hóspede do 201, o doutor Reis, Lídia, foi intimado pela pvde. E, ora, dou por mim a pensar sintaticamente nas minhas frases: Mãe vírgula podes passar tracinho me a cesta do pão que é complemento direto nesta frase e eu que sou complemento indireto comprovado pelo deítico pessoal “me” e tu vocativo “Mãe” entre vír – Sim! – diz a minha mãe ao ver tracinho me entrar numa espiral de criação poética absurdamente dolorosa mas necessária e já sem me questionar, continuo assim, «’screvendo à beira-mágoa», rezando a “Prece”, espalhando a Mensagem de que «tudo vale a pena/Se a alma não é pequena» e acreditando que tirarei 20 no Exame «se a tanto me ajudar o engenho e arte» [...]
- [sublinhados acrescentados]

Terá tirado tal Número da Tômbola?

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Ler e Escrever no tempo digital... - A. C. Cortez

- mais um artigo, na p. 30, do Público, de A. C. Cortez um dos Raros que se opõe, na arena pública, ao «provincianismo tecnológico», ao «analfabetismo  equipado» (Alberto Pimenta)

- Recorte:
[...] É por isso que o livro e a leitura e a escrita não podem ser postos de parte. As formas electrónicas devem estar ao serviço do livro impresso e da redacção. Ler implica anotar e sublinhar; exige tempo. Escrever é o fruto de um silêncio contemplativo (à letra: “construção do tempo") e é disso que a escola necessita: de tempo para ler e comentar por escrito; pensar a linguagem literária e transferir o saber literário para um discurso científico. Nessa aliança, a criança e o jovem não necessitam do computador em sala de aula, meio da excitação permanente dos sentidos, mas inimigo do Belo e da Consolação pelo Belo a que Steiner se tem referido. A perenidade do livro permanecerá, não duvido. [...]                       [sublinhados acrescentados]

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Vírgulas

- a questão das vírgulas a mais ou mal colocadas é tão [...], que [...]; mas ainda há quem reaja; no caso, M.E.C., na crónica de hoje: [...] não se põe uma vírgula entre o sujeito e o predicado. Ninguém põe. É uma estupidez.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Sibila

- D. não se lembra de quando terá sido a última vez em que leu A. B. L...; 
- irá de novo tentar, mas não já, não já...; assim, «A Sibila» continua a ser o que leu até ao fim, e releu...
- da enorme quantidade de [...] colocados, por estes dias, regista  este, do «Público», em que «passantes» lêem excertos de «A Sibila»

sábado, 18 de maio de 2019

Sophia (Colóquio) = «nada de coisas farfalhudas, nada de aldrabices»

Do Expresso, que refere «por cortesia da Família»

- assistir ao Colóquio: sem lá ter estado...; as vezes e pela ordem que se quiser...;
- além disso, (re)ver P. M. e F. B...
- [quanto aos «direitos de Imagem», devem ter sido todos cedidos...]
- dia 16
- dia 17

- dia 20:  artigo de L. M. Queirós no Público

sexta-feira, 10 de maio de 2019

«Vivem em nós inúmeros» (Reis)

Título da tradução em húngaro de poesia de Pessoa; do DN, de hoje; 
Recortes do artigo-entrevista com o editor e um dos tradutores, Ferenc Pal:

    Especialista em Pessoa, mas estudioso de toda a literatura portuguesa, Pal conta que no século XIX havia um grande fascínio do Império Austro-Húngaro por Camões, que até chegou a ser personagem de peças literárias, e depois de algumas tentativas fracassadas a primeira tradução de Os Lusíadas para húngaro foi publicada em 1875. "Eça de Queirós também tem seguidores desde cedo no país [...]
     Dos autores contemporâneos portugueses, o académico húngaro traduziu muito José Saramago, tudo a partir de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas o livro de que mais gosta é O Ano da Morte de Ricardo Reis, talvez também pela referência pessoana. "Fui amigo de Saramago e cheguei a entrevistá-lo em Lisboa para um jornal húngaro quando ainda não era famoso em Portugal, nem sequer se imaginava o Nobel. E gosto do que escreveu, mas para dizer a verdade acho que António Lobo Antunes é mais escritor, [...] 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

«Caderno de Significados»

- também D. se lembra desses «dicionários de Bolso em Construção», do tamanho, da textura e cor «amarelada» das folhas, já com risco vermelho impresso...
- a crónica de M. do Rosário Pedreira («Língua Madrasta») traça o paralelo com a Língua Escolar «atual» - de  30 de Março, no «DN DIG»

segunda-feira, 15 de abril de 2019

«conjugar o Gerundivo» + «olhos na ortografia»

[Cartola] Confiou o pedido da nacionalidade portuguesa a Barbosa da Cunha passando-lhe para a mão uma pasta com papelada que não voltou a ver. Pelo menos uma vez por ano, assegurava a Aquiles que os documentos estavam para sair. «Vai sair, menino Aquiles, agora, se me faz esse favor, olhos na ortografia que sem ortografia isso não anda para a frente!», dizia sem olhar para o filho, como quem, apesar do tom de gozo, falasse de um parente afastado. Não contava a ninguém que não sabia em que pé estava o processo, de que o obstetra pouco ou nada falava. Vivia com medo da polícia, de uma rusga. Planeava fazer-se de morto caso o abordassem. Parecia pensar que algum dia lhe bateriam à porta e lhe diriam que estava tudo tratado, que era enfim português, direito que julgava pertencer-lhe. Não sabia ele conjugar o gerundivo e a origem etimológica da palavra «Tejo»? Não achava, inspeccionando-se ao espelho, que não se geravam a norte do Alentejo, «e muito menos em África», maçãs-de-adão como a de Aníbal Cavaco Silva? […] Não escolhera já o seu talhão no Cemitério dos Prazeres, para onde se esquivava a entoar cânticos fúnebres em kikongo enquanto admirava os jazigos de família? Não se arrepiava ao ouvir o hino de Portugal e sabia de cor a primeira estrofe dos Lusíadas? […]

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda, Lisboa, Paraíso, 2018, Companhia das Letras, pp. 88-89

terça-feira, 12 de março de 2019

Obscena Literatura

- D. relembrou-se das  referências à «Literatura Freirática» (do Barroco «não oficial») feitas por R. Z., então no início da carreira (talvez em 8788...), ao ler o VERB de hoje das H. E., de M. do Rosário Pedreira [...]
- [...] que comenta o tema e remete para obras de anteriores séculos (1865-1940), colocadas AQUI

segunda-feira, 4 de março de 2019

Sophia no «Literatura Aqui»

DAQUI
- no «ano de S.», «L . A.» dedica-lhe (quase todo) o programa de 26 de Fevereiro (da V série)....
- com: poemas de S. lidos por vários; «Sophiana», poemas que lhe são dedicados, de vários (Vinicius, Sena, Ramos Rosa, Maria Andresen...); a exposição «Pour ma Sofie»; 
- ilustrações, adaptações e criações teatrais e outras...[...]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Que culpa tem Sophia? Nenhuma. A Juíza, também não...

- Nenhuma, pois não escreveu o que a SANTA lhe atribui.
- É a asneira viral. 

- artigo no Público, por Luís M. Queirós, já de dia 4
- crónica de  Nuno Pacheco, sobre o mesmo, a 7
- idem, em «Cuidado com as citações», a 14
- a autora, a juíza, diz que «o seu a seu dono...», a 15  - (mas ser amador(a) não implicará manter-se anónimo(a) no seu cantinho, pequenino?)

domingo, 20 de janeiro de 2019

Lagariça = Ramires (Torre de)?

- há dias referida em vários locais, a questão é objeto de desenvolvido «Dossiê» no OBS  (Imagem daí, também)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

«Ode triunfal» - A. Carlos Cortez

«Enrique Vives Rubio/ Arquivo»
(Fotografado da p. 37 do Público)

- e ao fim de várias dias a ler e a ouvir quem... [«e o resto não se diz...»], finalmente, um  artigo de quem sabe (como) LER...e «pôr o dedo na Ferida»; na página 37, do Público, de hoje

RECORTES:

[...] No limite, que autores e obras são verdadeiramente respeitados (isto é: lidos e comentados a sério) hoje? Bastaria comparar os manuais da Aster (anos 60 e 70) com os da actualidade e ver o emagrecimento dos conteúdos literários e históricos e a infantilização em curso desde há uns bons 20 anos a esta parte... Infantilização que se agudizou desde a reforma de 1996... Sinais dos tempos? 
[...] Por que razão não se lê o VIII poema de O Guardador? Talvez porque, quando o menino Jesus de Caeiro, descendo num raio de sol, anuncia a verdade suprema, se afirme que Deus é um velho sempre a escarrar no chão. Talvez porque aí Santa Maria seja uma mala que veio do céu e que o Espírito Santo "era a pomba mais estúpida do mundo"? Desconfio que os novos censores deste tempo acéfalo e sem memória defendam a obliteração deste e doutros versos... Bem vistas as coisas, falamos de desconhecimento dos textos por parte da Escola, não por apenas determinadas escolas. Com a velocidade a que se tem de "dar Pessoa", "dar Torga", "dar O’Neill", "dar Eça" ou dar qualquer outro conteúdo do programa, não espanta que a literatura surpreenda e agite as consciências quando é descoberta. Desconfio também que um poema longo como O Sentimento dum Ocidental igualmente não esteja na íntegra (ou nem sequer seja contemplado) em diversos manuais... E fala-se de "educação literária"... [...]

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Estilo - Lista, 2018

- da última crónica - de uma série semanal de cinco anos - , de Bagão Félix no Público :
IPSIS VERBIS

Seleccionei alguns erros ou modismos com presença muito assídua em 2018:

PLEONASMO: Há anos atrás (ou será à frente?) e alojamento local (ou será sem local?)
OXÍMORO: Grande beijinho (mas não pequena beijoca)
SOLECISMO: Vão haver muitas novidades...
PRONÚNCIA: rubrica dita erradamente como se fosse “rúbrica” e acordos como se fossem “acórdos”
CONJUGAÇÃO: interviu sem ter intervido
POUPANÇA SILÁBICA: competi(ti)vidade, precari(e)dade e empreen(de)dorismo (muito habituais em São Bento)
MODISMO: No fim do dia, uma tradução literal e afectada de “at the end of the day
MODISMOS FUTEBOLÍSTICOS: troca por troca (ainda que à condição)
MODISMOS VERBAIS: Empoderar, elencar e impactar
CONFUSÃO: o homem foi evacuado (coitado! Espero que não tenha sido troca por troca...)
PARADOXO: Correr atrás do prejuízo (ou será à frente?)
EUFEMISMO: politicamente correcto (eufemismo sobre o próprio eufemismo)
À ESPERA DE NEOLOGISMOS: Amarar no rio ou aterrar em Marte
CACOFONIA: um ovários
CONFUSÃO ACORDISTA: ótico (dos olhos) e ótico (dos ouvidos)

domingo, 16 de dezembro de 2018

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

«opar e epar», por M. E. C.

- há dias que W. andava para ref. esta Crónica, de 01 de Dezembro ; até já a afixou no Jornal de Parede do Qd.º 401...;
- Recorte:
«[...] Ensinei os oh, pás e eh, pás ao inglês, dizendo-lhe para opar e epar antes de fazer uma afirmação, mas logo percebi que tinha feito asneira, porque ele desatou a epar e a opar por tudo e por nada.
     “Oh, pá, este robalo está bom. Eh, pá, passas-me o galheteiro? Oh, pá, traz-me outra imperial, se fizer favor?” Nunca mais se calava.[...]



domingo, 18 de novembro de 2018

O Pronome que busca o Nome (sobre M. António Pina)

- é pelo Público de hoje, pelo artigo de Lúis M. Queirós, que se chega a vários «LOCAIS»:
- Jornadas, Colóquio e outras coisas, no Porto - «Desimaginar o mundo» - AQUI
- «Fotografias para [poemas de] Manuel António Pina» - no «Faces»

- Excertos, recortes do artigo:

         A ensaísta [Rosa Maria Martelo] anda há muito às voltas com a “estranheza” desta poesia, a que todos aludem e, [...] pensa hoje que “o que Pina fez foi pegar num tópico da modernidade, a ideia de um sujeito que é um efeito do texto, e colocar esse sujeito a falar na condição de criador, o que provoca no leitor uma estranheza absoluta”. Mas aceitando-se esta perspectiva, argumenta, “tudo o que esse sujeito diz é lógico e consequente”, e é só quando o confundimos com uma posição autoral, ou até biográfica, que se cria uma espécie de nonsense.
        Assim, sugere Rosa Maria Martelo, “o ‘eu’ que fala na obra de Pina é propriamente o pronome ‘eu’, um pronome à procura de um nome próprio, de alguém que lhe diga respeito, e só depois de se perceber que na sua poesia é o outro que fala sozinho, e é o outro que anda à procura dele, é que tudo começa a bater certo”.
       Voltando ao já referido poema em que Pina diz “chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto”, Rosa Maria Martelo acha que esse “eu” da poesia de Pina é permutável com o “isto”. Ou seja, “esse ‘isto’ que está cheio de gente a falar tanto pode ser a literatura como esse sujeito da escrita também ele cheio de vozes, apanhado naquela torrente de citações e de coisas lidas”, defende. “É isto que dá a Pina uma posição originalíssima, e creio que mesmo única, na poesia portuguesa”.  E se pensa que Pina transformou a herança modernista em algo muito próprio, também não menoriza a presença de Pessoa, lembrando que versos de Pina como “É duro sonhar e ser o sonho,/ falar e ser as palavras!” correspondem a “uma formulação muito pessoana”. E podia acrescentar-se, entre muitos outros, um notável poema do último livro (Como se Desenha Uma Casa, 2011), onde Pina escreve: “Há em todas as coisas uma mais-que-coisa/ fitando-nos como se dissesse: ‘Sou eu’,/ algo que já lá não está ou se perdeu/ antes da coisa, e essa perda é que é a coisa”. Versos que trazem à memória da ensaísta estes outros de um célebre poema de Pessoa, significativamente intitulado Isto: “Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa é que é linda.” [...]

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Cardoso Pires - Arquivo Digital e não só...

- 20 anos após o falecimento, e talvez 10, após a «disponibilização» dos «papéis» - artigo, do Público - AQUI - e arquivo na Hemeroteca

- «ZÉ». Crónica de A. Lobo Antunes, na Visão, de 15 de Novembro - a 22, AQUI

sábado, 29 de setembro de 2018

Saramago - Roteiro de Leitura

- Pedro Vieira apresenta o seu «Diário de Leituras Saramaguianas» - de «Jangada...», a «História do Cerco...»,  «Manual de Pintura...», «Levantado do Chão», «Evangelho...» - AQUI

REcorte:

[...]Olhando para trás, percebo que a relação com os livros de Saramago se foi tornando um caso sério. Caso contrário, dificilmente me lembraria da ordem pela qual os li, das impressões fortes que me deixaram. Do Manual passaria ao Levantado do Chão, um dos meus preferidos e inquietantemente actual – onde havia praças de jorna há Uber Eats e derivados – e desse ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. É esse o romance que mais me liga a Saramago e ao ano alegre e triste de 1998.
Li-o meses depois de o meu pai nos ter deixado, em parte por ter ido em busca de uma pacificação. A relação com a educação católica que recebi desde cedo foi-se deslassando com o tempo e num momento de luto, de revolta, apartámo-nos de vez. Minto. Aproximámo-nos de vez. A fé extinguiu-se, o interesse pelas narrativas do sagrado não. [...]

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

«desmoer» - MEC


[...]Desmoer é contrariar o que nos mói o juízo, o moral, o caparro. Moer é estafar, reduzir-nos a fanicos no eterno moinho de água que é existir. Somos como sardinhas moídas por todas as outras sardinhas em cima de nós.
A vida está sempre a moer-nos, a gastar-nos, a lixar-nos com lixa. Desmoer é tentar fugir a essa condição. Atravessa-se um campo para desmoer. Descalça-se um pé. Assobia-se.
[...]

domingo, 9 de setembro de 2018

O Ovo... - Provérbios (o «insustentável poder lúdico» dos)

Bartoon, Luís Afonso, Público, 09-09-2018
(quem diz que não há Humor nem IMAG. lá por aquelas Bandas:..)

- P. N. S.:
- «não há três sem quatro» (P. N. S.);
Jerónimo***:
- «(é preciso não) contar (apressadamente) com o Ovo no dito cujo da Galinha»


***Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP, é um caso excepcional no uso lúdico que faz da língua portuguesa. Segue-se, embora a grande distância, o Presidente da República (no tempo em que era comentador saía-lhe recorrentemente a expressão "não lembra ao careca". [...]                    Ana Sá Lopes, p. 36 do mesmo suporte

há naturalmente que (re)convocar um grande texto sobre o motivo:


[...] Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. [...]
Clarice Lispector,  Laços de Família [1.ª ed:1960]


Público, 13 - 09 - 2018


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

«Sabes muito...» - MEC


- Parágrafos iniciais:
Na expressão "sabes muito..." são as reticências que mais falam. Porque em português não há elogios de borla. É verdade que quando me dizes "sabes muito..." estás a confessar que ficaste surpreendido com o muito que eu sabia e que isso produziu em ti um novo respeito pelos meus conhecimentos.
Mas também estás a dizer que tu ainda sabes mais do que eu e que é por isso que a minha tentativa de te ludibriar falhará sempre. "Sabes muito...mas a mim não me enganas!"
[...]

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

«levantar-se da mesa a cair»

Fernando Pessoa apareceu duas noites depois, regressava Ricardo Reis do seu jantar, sopa, um prato de peixe, pão, fruta, café, sobre a mesa dois copos, o último sabor que leva na boca, como ficámos cientes, é o do vinho, mas deste freguês não há um só criado que possa afirmar, Bebia de mais, levantava-se da mesa a cair, repare-se na curiosa expressão, levantar-se da mesa a cair, por isso é fascinante a linguagem, parece uma insuperável contradição, ninguém, ao mesmo tempo, se levanta e cai, e contudo temo-lo visto abundantes vezes, ou experimentado com o nosso próprio corpo, mas de Ricardo Reis não há testemunhas na história da embriaguez. Sempre tem estado lúcido quando lhe aparece Fernando Pessoa, […]

José Saramago, O ano da morte…, Porto Editora, 23.ª ed., p. 321

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Trocadilho (teoria do)

- recortes da tripla entrevista com os editores da obra de Sesinando (A. B. B., R. A. P. e L. C. G.), no Ipsilon de 17-08:

AQUI

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

«(quando, afinal) a alma é pequena» OU de Camões a Pessoa há que «PARAR» em Cesário

- [«Educação Literária», eis uma exp. com que M. faz o Possível por Embirrar o mais possível, pois prefere S. L....; adiante...]

- Recorte de Artigo de hoje, no Público, de H. C. Buescu:
 [...] No 11.º ano, permitam-me dizer que há, não um, mas dois escândalos: o desaparecimento da orientação explícita de que Os Maias são uma das obras preferenciais de Eça de Queirós a ler (...); e aqueloutra que, de Cesário Verde, se limita a dizer que é obrigatória a leitura de três poemas, sem mencionar o extraordinário O Sentimento dum Ocidental, poema sem o qual Fernando Pessoa não existiria, como muita da poesia do século XX nunca teria podido existir. Não perceber isto representa uma terrível ignorância. Como se pode operacionalizar a reflexão sobre o lugar da épica na poesia portuguesa (proposta no Programa) eliminando o maior elo entre Camões e Fernando Pessoa, que é Cesário Verde? [...]

Nota de M.:
- ao longo de mais de duas décadas, nunca M. percebeu, na E. do Paraíso, como aparecem sem ter lido Cesário com «olhos de Ler», e não com trab.os de «chacha» (e até nem não são as 700 páginas de «Os Maias»...)

domingo, 29 de julho de 2018

Estilo (figuras de)

- anexa à crónica de B. Félix de 27, no Público, a habitual secção «Ipsis Verbis»:

PLEONASMO: a equipa vencedora teve mais posse de bola
OXÍMORO: uma fugaz eternidade
HIPÉRBOLEum golo do outro mundo (qual mundo?)
ANTONOMÁSIAA catedral da Luz (em vez de Estádio do SLB)
SINESTESIANuma serenata à chuva, o olhar silencioso dos croatas e o som dourado dos “bleus”, entre quentes cumprimentos numa melodia de cores russas.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

«Os Maias» - «vai chatear o Camões» OU «pequenino escândalo», ao 4.º Dia

- crónica mordaz de R. de C., no Expresso 

- o «4.º dia» em outra (também Mordaz) crónica, desta vez de Alberto Gonçalves

4º dia (da «Selva»)
Rebentou um pequeno escândalo porque “Os Maias” deixaram de ser leitura obrigatória no liceu. Meia dúzia de pontos. Primeiro, parece que a obra é facultativa desde 2002, prova de que a indignação, embora implacável, foi decidida com vagar. Segundo, é absurdo interromper a atenção das crianças em volta das novas tecnologias (publicar fotos no Instagram e assim) para maçá-las com formas de comunicação anacrónicas. Terceiro, ao que se vê por aí, a antiga obrigatoriedade de Eça não convenceu várias gerações de portugueses a escrever bom português, ou sequer a escrever português de todo. Quarto, se a criança for normalzinha, a conotação de um livro com a escola é suficiente para dedicar-lhe o tipo de afeição que se dedica à sarna, pelo que o currículo oficial deveria limitar-se a produtos oficiais, género Mia Couto e os novíssimos romancistas caseiros. Quinto, “Os Maias” são demasiado explícitos na chacota do pardieiro em que vivemos, o que naturalmente aborrece os donos do pardieiro e os leva a preferir autores “humanistas” como Manuel Alegre, as senhoras da colecção “Uma Aventura” e aquele mãe com minúscula. Sexto, a demonstração de que o liberalismo nacional vai longe está no facto de mesmo os liberais acharem que compete ao Estado escolher as leituras, os interesses e provavelmente os sapatos dos filhos. Sétimo, os indignados que vão chatear o Camões, fingindo que o lêem.
[sublinhados acrescentados]

[...] o argumento de que os jovens podem conhecer Eça de Queirós lendo outros romances (esses já são legíveis?) é bem engendrado, mas não convence. Os Maias são o mais extraordinário romance da literatura portuguesa e neles está quase tudo o que Eça de Queirós nos legou: um admirável retrato literário da sociedade portuguesa do século XIX, personagens (incluindo tipos sociais) que nenhuma outra obra da nossa literatura foi capaz de conceber, uma densa reflexão, em clave ficcional, acerca da história, dos seus acidentes e do modo como os homens os vivem, uma tematização do tempo e da morte, da decadência e da memória como valores e sentidos que são parte de nós, em qualquer idade ou época. [...] 

[...] Nele se cruza uma impiedosa pintura da sociedade portuguesa e dos seus tipos humanos e sociais com a história trágica de um amor incestuoso, símbolo do círculo fechado em que Carlos, Maria Eduarda e a família Maia estão encerrados, presos nas teias do destino. E a simbologia desse círculo fechado alarga-se ao país, encerrando as próprias elites protagonistas do romance num tempo parado, imobilista, gerador de uma experiência diletante de desencanto e desistência. Eça denuncia a impotência das elites sociais dominantes e vinga-se delas através da própria escrita irónica do romance e também da confusão auto-irónica de si mesmo com a personagem de Ega, o qual, dono da ironia, mostra o mundo na sua duplicidade trágica e cómica.
Só a arte, e dentro dela a grande literatura, capta a duplicidade complexa da realidade humana e social, permite um conhecimento alternativo do mundo, por isso não é dispensável e por isso é intensamente formativa.[...]

- a 14 de Agosto, A. Carlos Cortez, no Público; Recorte:
[...]Não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós é impedir o acesso dos jovens a um monumento literário em que a língua portuguesa atinge um alto grau de expressão estética.[...]

domingo, 8 de julho de 2018

«Gerúndio de pacotilha» - M. E. C.

Ser e Estar e «estar a acrescentar», crónica de sexta, 6, de M. E.C. 

REcortes:
Para falar português como os indígenas [...] Uma das particularidades mais engraçadas é o prolongamento dos verbos através do acrescento de "estar a". Está dentro da regra geral de usar um máximo de vocábulos para ocupar um máximo de tempo porque obviamente no jogo da conversa ganha sempre quem fala mais. [...]
estar a vem da portuguesíssima distinção entre estar e ser que nos deixa dizer: "É pá, tu que és tão jeitoso estás cá um nabo!" ou "ainda não percebi se o Emílio é ou está estúpido".
Quando perguntamos a alguém o que ela faz nunca vamos directamente ao assunto. Ninguém pergunta "Que fazes?" [...] Perguntamos "O que estás a fazer?" por influência do inglês "What are you doing, you stupid idiot?" E daí respondermos "Estou a bordar esta bandeira". Trata-se daquilo que os linguistas conhecem por um gerúndio de pacotilha. Um gerúndio correcto seria, claro, "Estou bordando esta bandeira".
A partir daí arrastamos tudo para o gerúndio como se estivéssemos permanentemente presos a cada acção. Para quê estar a dizer mais sobre este assunto?

quarta-feira, 13 de junho de 2018

S. António por Pessoa

SANTO ANTÓNIO
Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.
(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)
Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
[...]    

Artigo de José Barreto, sobre os poemas dedicados aos santos populares
 que Pessoa escreveu a 9 de junho de 1935, quatro dias antes de 
completar 47 anos, [...]    , referenciado hoje no OBS

domingo, 10 de junho de 2018

«Quem és tu?»

- repete, neste momento, no Canal «Memória» este Documentário de 98...
- disponível no Arquivo da RTP

domingo, 3 de junho de 2018

Maria Judite e Clarice

- são os nomes que a neta, Inês, que diz ter conhecido a avó até aos 18 anos, atribuiu às bisnetas...

- [...] Inês Fraga gostaria que a avó pudesse ressurgir, nem que fosse apenas com um pouco da luz que agora incide sobre Clarice [Lispector]. “Ela estava dispersa, inacessível a muitos leitores, e agora vai ter uma casa única e todos os livros disponíveis”, salienta Sara Lutas, que sublinha a intemporalidade da obra de Maria Judite de Carvalho. [...]        [DAQUI)

- Em «Horas Extraordinárias», também

quarta-feira, 16 de maio de 2018

“Perdeu, literalmente, a cabeça”





- muito usada expressão, com a qual diz Embirrar o autor do «Desdicionário» ou «Criativa lista de palavras» sem «passado etimológico», como refere o artigo do «P3» 


- a ver?

"Jardinheiro": aquele que está sempre a deixar cair moedas ao chão; ilustração de José Cardoso

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Figuras de estilo em Crónica «Religio-Botânica...»

- para:
- que não se diga: «à Literatura o que é da Literatura, à Botânica o que é da Botânica»...
       («Caiu a pinha, voaram os pinhões, secou o eucalipto» - que enumeraçao...)
- que já não há Humor na Terra da «apatia-indiferente»...

IPSIS VERBIS

CITAÇÃO: “Se o desonesto conhecesse as vantagens de ser honesto, seria honesto ao menos por desonestidade” (Sócrates, 469 a.C. - 399 a.C.)
OXÍMORO (I): Pequeno nada
OXÍMORO (II): Uma obscura claridade
PLEONASMO: Protagonista principal
ANÁFORA: Ninguém sabia, ninguém desconfiava, ninguém enxergava. Ninguém, ninguém mesmo...
CATACRESE: O pé da marquesa quebrou-se

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Mar de Vigo, Codax por Buarque

«Canção V», de Martim Codax, por Chico Buarque de Holanda, para o grupo «Sem Mim»:      AQUI

sábado, 28 de abril de 2018

Santa Rita - Centenário


Em 1917, aconteceu tudo. Almada Negreiros publicou “K4 ...” e “A Engomadeira”. Santa Rita Pintor montou com ele uma “Conferência Futurista”. [...] Lançou-se a revista “Portugal Futurista”. Sidónio Pais fez um golpe de Estado. Estrearam-se os Ballets Russes em Lisboa. Em 1918, não aconteceu nada. Primeiro morreu Santa Rita, e depois Amadeo. Almada começou a fazer a mala para rumar a Paris. Os últimos anos têm sido pródigos em centenários [...] Para 2018 está reservada a evocação de Santa Rita e Amadeo. Mas se sobre o segundo o universo cultural tem produzido iniciativas enriquecedoras à margem de efemérides, e produzirá mais [...] isso só agora começa a alterar-se sobre o esquivo Santa Rita Pintor, cujos oportunos cem anos da morte se assinalam a 29 de abril.                        
 [“LUZ E SOMBRA” Retrato de Vitoriano Braga, fotógrafo de Almada Negreiros e Fernando Pessoa, cedido por Luísa Braga/DGPC]